Sunday, April 29, 2007

Não Sei

Não sei se a vida é curta ou longa demais pra nós,
Mas sei que nada do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
Colo que acolhe,
Braço que envolve,
Palavra que conforta,
Silêncio que respeita,
Alegria que contagia,
Lágrima que corre,
Olhar que acaricia,
Desejo que sacia,
Amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.

É o que faz com que ela não seja nem curta,
nem longa demais, mas que seja intensa,
verdadeira, pura... Enquanto durar.

Autora: Cora Coralina

Armadilhas

No mundo há muitas armadilhas
e o que é armadilha pode ser refúgio
e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela por exemplo
aberta para o céu
e uma estrela a te dizer que o homem é nada

ou a manhã espumando na praia
a bater antes de Cabral, antes de Tróia
(há quatro séculos Tomás Bequimão
tomou a cidade, criou uma milícia popular
e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
e muitas bocas a te dizer
que a vida é pouca
que a vida é louca

E por que não a Bomba? te perguntam.
Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
que não sabe
que afoito se entranha à vida e quer
a vida e busca o sol, a bola,
fascinado vê o avião e indaga
e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.

E não te mataste, essa é a verdade.
Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.

E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar e agüentarás até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm há os que têm tanto que
sozinhos poderiam alimentar a cidade
e os que não têm nem para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato, o homem está
preso à vida e precisa viver o homem
tem fome e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los

Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.

Autor: Ferreira Gullar

Saturday, April 28, 2007

Beleza Americana - Apresentação

“American Beauty” é o nome (ou categoria) de uma cobiçada rosa. Ela possui formas perfeitas, cores intensas e textura macia. Também não possui espinhos e nem cheiro. É objeto de desejo. Como o ideal de vida americano.

Após assistir o filme “Beleza Americana”,eu e as minhas amigas Anne e Aline, resolvemos analisar os tipos de sujeito presentes no filme. Uma de nossas conclusões é que esses sujeitos realmente existem e fazem parte do nosso cotidiano. Será que ao final você poderá afirmar qual é a sua predominância?

Fizemos uma introdução para explicar cada um e posteriormente a análise do personagem em questão.

Boa Leitura!

Beleza Americana - Parte I

Sujeito ILUMINISTA

É um sujeito centrado, que possui um único e imutável centro. Todas as suas atitudes e escolhas giram em torno dessa consciência unificada. Seu centro seriam seus interesses e desejos pessoais, como se o mundo girasse em torno de seu próprio umbigo (um sujeito umbilical). Retratado na maioria das vezes através de atitudes individualistas.

Personagem Escolhido

Ao analisar o filme “Beleza Americana” podemos identificar que a personagem Carolyne é um sujeito iluminista em sua plenitude. Ela é a típica burguesa, este é seu centro e as suas atitudes giram em torno dele tentando o tempo todo projetar uma imagem de sucesso.

Embora ela tenha um psicológico abalado, um casamento frustrado, relações frágeis, constante insegurança e necessidade de afirmação (sim, somos boazinhas... muahaha), ela vive num mundo de aparências. Vista de fora Carolyne parece uma profissional de sucesso, bem sucedida, ponderada e feliz.

Nas festas ela sorri, ri com seus amigos, demonstra amor ao marido. Em casa, sua mesa de jantar metodicamente ornamentada sustenta seu mundo de aparências pois sua vida familiar é totalmente conturbada, embora haja comunicação, não existe o diálogo.

Mesmo Carolyne tendo um caso extraconjugal, não significa que ela tenha mudado seu centro, ele continua sendo o mesmo, a todo momento ela tenta se auto-afirmar projetando uma imagem de sucesso, pois o personagem com o qual ela se envolve é um homem bem-sucedido com uma carreira promissora.

Ela não mede esforços para sustentar esta imagem ideal, mesmo que o preço a ser pago seja caro. A todo momento ela representa inventa uma realidade imaginária.

Quando Lester deixa transparecer sua máscara (flagrante), Carolyne sente sua imagem ameaçada, se desequilibra emocionalmente e suas inseguranças aparecem fazendo com que ela pense em tomar uma atitude drástica.

O fato de ter sido descoberta, fez com que seu mundo fosse questionado, pois ela sempre precisou acreditar em suas mentiras para construir uma identidade.

Beleza Americana - Parte II

Sujeito SOCIOLÓGICO

É o sujeito dependente que busca um novo centro pois se encontra insatisfeito com o seu próprio “eu”.

Este centro é formado e modificado no cotidiano através de influências externas de contatos contínuos com o mundo interpessoal. Assim, o sujeito sociológico consegue equilibrar sua identidade alinhando sua maneira de agir e pensar.

Personagem Escolhido

Ao analisar o personagem Lester, notamos que ele é definidamente um sujeito sociológico. Inicialmente ele se sente solitário e insatisfeito com sua vida, família e casamento. Podemos notar de maneira explícita durante a cena na quadra que Lester se deixa encantar por Ângela (amiga de sua filha).

Analisando seu imaginário vemos que o sociológico de Lester começa a aparecer, seu “eu” não é mais suficiente, ele se torna dependente de algo que o complete.

É então que vemos a mudança de centro de Lester para o “homem-lobo”. Ele larga seu emprego, pois busca menos responsabilidades, começa a malhar e fumar maconha.

É um novo “eu” que está se formando.

Beleza Americana - Parte III

Sujeito PÓS-MODERNO

O sujeito Pós-Moderno tem por característica a multifaceticidade. Suas ações são transformadas continuamente de acordo com as circunstâncias vividas.

Situações diferentes exigem para o seu jeito pós-moderno comportamentos diferentes. Ele é um sujeito completamente fragmentado, inconstante que desliza com destreza entre os centros. Sustentar essa multiplicidade de centros exige muito cinismo.

Suas atitudes são muitas vezes incoerentes e desprovidas de sentido. Ele atua como um camaleão podendo entrar em colapso a qualquer momento devido ao caos contemporâneo.

Personagem Escolhido

Rick é um sujeito claramente pós-moderno, ele enxerga a sociedade sem máscaras e devido a isso é considerado esquisito pelos outros.

Ele desliza para o centro de bom filho no carro com o pai, já na festa ele desliza por três centros diferentes: garçom, viciado e traficante, agindo no entanto com a maior naturalidade.

Ele filma as pessoas, sua lente é um mundo sem barreiras, enxergando a beleza sob todas as formas – um dos poucos pontos positivos no mundo atual.

Podemos então ver a beleza que existe acima do caos cotidiano, anestesiando o colapso dos dias.

Monday, April 23, 2007

Resposta

No escuro de minha alma, procurava cegamente uma saída. Olhava para o alto e nada via, procurava as chaves, mas não encontrava. Pensava que estava trancada, sentia-me totalmente presa.

Não entendia, não havia motivo! Era injusto demais. Por quê precisaria eu, andar nua pelo inverno mais cruel de minha vida? Porque justo quando eu estava completamente desprotegida? Com lágrimas minha pele em carne viva se aquecia - meu coração secava.

Como uma criança eu chorava, desejava voltar ao útero, retroceder ao cosmo e ser um nada. Ou quem sabe ter o privilégio de nascer uma estrela, uma plantinha qualquer, uma pedra. Porque não? Queria ser apenas qualquer ser inanimado que não possuísse sistema nervoso. Que não tivesse sentimento, que não sentisse dor.

Minha alma vertia sangue, não havia chão. Estava enclausurada, pensava que meu destino seria esse e nele não havia o calor, apenas o frio da solidão.

Mas você na mesma condição, como eu vagava cegamente, tateando o infinito. Então guiei-me pelo som de sua respiração, até que um dia o ar de nossos pulmões se encontrou. Minha mão estremecida tocava seu rosto com dificuldade – e as suas – lentamente minhas costas percorriam, enquanto os braços se encaixavam num abraço.

Minha alma se aquecia envolta em ternura enquanto um tímido feixe de luz aos poucos revelava a face da eternidade, a beleza de Deus,
os traços do amor e as asas da libertação.

Muitos dizem que nos encontramos finalmente. Eu discordo. Estávamos o tempo todo um dentro do outro.

Tuesday, April 17, 2007

Polidez é Inteligência

A polidez é uma convenção tácita para ignorarmos a mísera condição moral e intelectual do ser humano e assim evitarmos acusá-la mutuamente; desse modo, ela vem menos a lume, para proveito de todos. Polidez é inteligência; consequentemente, impolidez é parvoíce. Criar inimigos por impolidez, de maneira desnecessária e caprichosa, é tão demente quanto pegar fogo à própria casa. Pois a polidez, como as fichas de jogo, é notoriamente uma moeda falsa: economizá-la é prova de insensatez. Gastá-la em profusão, pelo contrário, é prova de sensatez. Quem leva a polidez até ao sacrifício dos interesses reais, assemelha-se àquele que, em lugar das fichas de jogo, desse autênticas moedas de ouro. Do mesmo modo que a cera, dura e quebradiça, torna-se maleável com um pouco de calor, assumindo qualquer forma desejada, também se pode, com alguma polidez e amabilidade, tornar flexíveis e dóceis os homens mais recalcitrantes e hostis.

A polidez, portanto, é para o homem o que o calor é para a cera.

Autor: Arthur Schopenhauer.

Monday, April 16, 2007

Debaixo dos Caracóis...

Mulher nunca está satisfeita com nada, reclama de tudo. Se faz uma escolha se lamenta o resto do dia e se faz a outra, também. Mulher não se contenta com nada, toda hora quer mudar alguma coisa, por que nada está bom o suficiente.

Os cabelos que o digam! São os que mais sofrem com seus transtornos psicóticos, pois um dia elas acordam e não sabem se mudam para o l oiro acinzentado 7.2.1 grenée ou o 8.3.12.1 loiro mel acobreado claro ou o 9.4.36.974.365-castanho super-claro mel acobreado luminoso.

Na hora de mudar o visual não sabem se cortam curto, chanel e repicam as pontas ou se fazem luzes, reflexo ou balaiage, piastra ou defrisagem e hidratação. E no fim das contas estão com a mesma cara de peixe-boi.

O dilema dos cabelos começa na adolescência. Você começa vendo aquelas menininhas lindas nas propagandas com cabelinhos escorridinhos, mas ao deparar-se com o espelho leva um susto pois não têm a certeza se aquilo que você está vendo (você) é realmente um "poodle". Ao longe é possível ouvir os primeiros berros.

Depois vem a fase de transição, onde segue-se à risca todas as dicas escrotas das revistas. O resultado é homérico! Saem na rua como travecos, andando com todo o cuidado do mundo para não desmanchar as horas de baby-liss ou chapita.

Na hora de lavar todo cuidado é pouco. Por isso capricham no pós-banho, mergulham-se em potes de cremes milagrosos e ficam horas do dia com uma máscara de hidratação à base de óleo de jincobiloma da China, extrato de unha de porco e essência de bafo de camelo.

Agora para e pensa. A nossa mente já não nos deixa em paz, a pressão da mídia nos enlouquece, a cobrança das amigas nos oprime e o resultado é qual? Caótico, no mínimo.

Pensa em uma adolescente infeliz com o seu cabelo e que acha que por isso tem cara de poodle... Pensou? Então, ela tem algumas escolhas:

A) Andar com um saco de papelão extra-large com dois furinhos.
B) Fazer parte do circuito sadofashionmazoquistatopstyle
C) Bancar a Avril e fazer o tipo undergroundblackposerevolts
D) Chorar
E) Refletir

Graças à Deus eu já passei dessa fase e procurei refletir. Agora vendo de fora, acho uma judiação o que fazem com a gente. Muitas meninas levam essa cobrança para a vida adulta (que é MUITO mais cheia de demandas). Daí para não enlouquecer, fica muito mais fácil ceder e se render de uma vez por todas a esse jogo.

O secador não é maldito, ele é uma mão na roda muitas vezes. Mas devemos usá-lo e não nos deixar ser usadas por ele.

É claro que sou mulher e por isso vivencio dilemas idiotas 24hrs por dia (incluindo os sonhos). Mas eu não perderia a minha paz, não estragaria o meu dia e não deixaria de viver as coisas boas da vida por me desgastar desnecessariamente com coisas tão pequenas.

Tuesday, April 10, 2007

Esquisitices

Alguns adoram estourar plástico-bolha, jogar pedras em lagos ou pisar em folhas secas.... Se você parar para prestar atenção perceberá que todos temos gostos estranhos que muitas vezes nos passam desapercebidos.

As pessoas sempre têm características, gostos e hábitos curiosos, peculiares, pitorescos ou mesmo bizarros! Você já parou para pensar qual ou quais são os seus? Não estou falando de fetiches ou fobias, vejam bem. Falo de algo mais ameno, praticado muitas vezes, inconscientemente.

Vou contar algumas esquisitices minhas:

  • Barulho de embalagens plásticas instigam o meu apetite e ao ouví-lo, imediatamente olho para os lados. Eu odeio este barulho, lembro-me da época de vestibulares em que eu não levava nada pra comer e ao meu lado sempre tinha alguém que fazia aquele barulhinho todo. No avião esse barulho também é característico, dá um certo charme àquela comida (leia-se ração) massificada.
  • Cheiro de cigarro me dá gastura, tenho a impressão de estar ficando com a pele cinza, poros sujos e cabelos quebradiços. Aquela fumaça insuportável parece entrar no meu ouvido, penetrar no meu cérebro e ficar gritando “uh-uuuh”.

  • Qualquer barulho de relógio me tira do sério, pode ser mínimo, inaudível... que mesmo assim eu fico estressadíssima e não consigo raciocinar enquanto não der um fim nele.
  • Não gosto de usar caneta, tenho a impressão de que não será possível voltar atrás... Odeio usar lápis, fico mais preocupada com a ponta dele do que com o conteúdo. Adoro usar lapiseira, sinto-me livre, especialmente se o grafite for 2B, mas sempre preciso de uma borracha por perto para me sentir segura.

  • Gosto de sentir a textura crocante de um bife à milanesa, cada mastigada é um deleite. Sinto cada espacinho fazendo cócegas na minha língua.
  • Amo quando mexem no meu cabelo, fico toda sonolenta e minha boca fica sorrindo sem eu deixar. E quando é meu namorado quem mexe no meu cabelo, além disso tudo, eu fico maaais apaixonada. Esse gesto me transmite muita ternura e proteção... Acho que é por que quando eu era menininha, minha avó fazia cafuné em mim até eu dormir.
  • Cheiro de roupa com amaciante é TUDO de mais maravilhoso no mundo. Nada melhor do que tomar o café da manhã com banho tomado e usar aquela roupa com cheiro de infância. Nada mais gostoso do que abraçar seu amor e sentir aquele cheirinho matinal e ensolarado de amaciante.
  • Adoro ficar na frente do fogão sentindo o cheiro da cebola e do alho dourando na panela.
  • Thursday, April 05, 2007

    Juventude

    Agora que já estou bem velhinha vou aproveitar para fazer tudo àquilo que sempre quis!

    Vou aproveitar este tempo que me resta e fazer tudo o que sempre tive vontade. Dedicarei minha vida à tudo o que mais amo. Passarei a maior parte do meu tempo escrevendo, pintando e costurando, sem culpa! Também poderei fazer àquela faculdade que tanto sonhei e me aprofundar em todos os estudos que nunca se encaixariam nesse capitalismo selvagem.

    Terei tempo suficiente para fazer ginástica, plantar flores, cuidar dos meus bichinhos e desenvolver todas as habilidades que àqueles tempos tão corridos me privaram.

    As rugas já fincaram seu lugar cativo em minha pele, não tenho mais para onde fugir. Não dá mais pra esconder, agora sou livre e posso ir a todos os lugares sem me preocupar, sem me sentir julgada... afinal, quem liga para uma velha cheia de rugas?

    Quando jovem, eu vivia como se fosse viver para sempre! Não parava para pensar na fragilidade da vida. O tempo para mim era sempre muito farto e abundante, eu nem o via passar. Como mortal cheia de medos, aterrorizava-me de tudo, mas desejava tudo como se fosse imortal.

    Queria chegar aos cinqüenta para refugiar-me na natureza e aos sessenta desejava estar livre dos encargos cotidianos... Projetava minha realização pessoal para um tempo muito remoto.

    Naquele ilusório presente o importante era ganhar muito dinheiro, ser uma profissional bem-sucedida e esbanjar status. Passei anos da minha vida correndo atrás do vento que me trouxe até aqui.

    De fato estou livre de todas as maquiagens mentais, fardos e cabrestos da vida. Finalmente cheguei aonde tanto queria! Posso ver claramente como tudo nesta vida é vaidade e aflição de espírito. Já tenho sabedoria suficiente para não levá-la tão à sério. Mas agora é tarde... não tenho saúde.

    Envergonho-me de ter reservado para mim apenas as sobras da vida e destinar à meditação esta idade que já não serve para nada. Tarde começo a viver... justo agora que é hora de partir.

    Mais do que nunca sinto o cheiro da morte a me sondar e ele me enche de encanto pela vida. Bebo cada dia até a última gota, rio e choro como uma criança, canto alto e falo “bom dia” para todos na rua.

    Não tenho nada a perder.