O tempo está passando rápido e isso não é bom...
Tudo bem que a minha adolescência foi difícil, mas a infância era
doce, tão doce que dá até um azedo no peito.Eu não sabia que as
pessoas eram falsas, que o mundo estava se desmoronando e que
as relações eram cada vez mais descartáveis, eu não sabia que
tinha tanta gente passando fome, frio, tanta gente doente e sofrendo.
Quando eu era criança tudo tinha cheiro, cor e vida. Eu vivia
intensamente sem pensar no futuro, a única coisa que existia era
o instante e nada mais.
Coisa difícil hoje em dia, onde o corpo está ali, mas a mente
ninguém sabe, nem quem a tem. Demoro a voltar ao instante e
digerir o presente, uma angústia toma conta de mim... o que vou
levar desta vida?.. Tudo aqui é vaidade e aflição de espírito.
Retorno às minhas raízes, lá fora já me machuquei demais,
sobrevivi. Tudo bem que minha mente guarda seqüelas, mas o
que não me mata me fortalece. Busco mais que tudo a minha
essência e ela está nas coisas mais simples.
Meu cachorro deitado na caminha olhando pra mim com um
olhar mudo, mas tão expressivo... minha irmã quase
feita de porcelana se movendo pela casa, meu pai com olhar cansado
sorrindo para mim... minha mãe me dando conselhos e meu
namorado chegando sempre cheio de flores...
Dá pra ser mais perfeito?
É por isso que eu não faço questão nenhuma de procurar
felicidade lá fora.
O barulho da cozinha, o cheirinho do café, os talheres tilintando
nos pratos, a Tv ligada... Sons que se misturam em doces melodias
que regem meus sentimentos e embalam meu coração dorido.
Agonia de saber que tudo passará, mas que tenho você aqui
comigo pra dizer que talvez eu tenha valor, que talvez eu seja
importante pra alguém e que sempre existe alguém que te ama
de verdade...
Que agonia quando seguro a mão da minha mãe, levo-a no meu
rosto e a cheiro... sinto-me dentro de seu útero, sinto-me tão
protegida de tudo e de todos, mas agora meu corpo cresceu e sou
obrigada a sair dessa casca de ouro.
Não dá mais pra fugir dessa realidade, não sei como agir sob a
minha pele, não sei o pq a minha alma vestiu essa roupa.
Não sei o que significa existir... Mas sei o que é ter vida...
Pq ela lateja e pulsa, não tem como ficar indiferente à ela.
Quero dar vida ao que existe dentro de mim!... E o que grita é
AMOR, AMOR, AMOR!!! Tenho vontade de dançar na rua, cantar
bem alto, girar e rir, levantar os braços e pular... mas diriam que
eu sou louca. É loucura amar, é loucura ser feliz.
Contenho-me então e ao primeiro olhar que se detém no meu, seja
de um velhinho ou criança, seja de um cachorro ou um andarilho,
minha boca faz um movimento diferente, mas eu não sei se chega a
ser um sorriso... bem que gostaria.
Às vezes eu vejo uma borboleta, uma joaninha, um passarinho
cantando ao longe, uma poça de água com minúsculas folhas, chãos
metamorfoseando-se em mosaicos, sinto o sol escaldando minhas
retinas, a sombra aliviando a minha pele, o ar enchendo os
meus pulmões.
Quero me libertar... sei que um dia estarei livre...
E quando este dia chegar... não estarei mais neste mundo.