Friday, January 11, 2008

Em Suas Mãos

Dê valor no que você tem em suas mãos. Não deixe que uma simples discussão seja capaz de tirar sua paz. Não permita que pequenas coisas o incomodem a ponto de fazer escoar o seu amor pelo ralo. Não ignore a linda história que vocês têm por causa de ciúmes ou opiniões divergentes.

Mesmo que a outra pessoa tenha lhe dado motivos de sobra, mesmo que você tenha toda a razão do mundo... Não, por favor... Não vale a pena. A vida é tão curta! A gente morre, fica tudo aí. Sua roupa, seu carro, seu dinheiro, sua casa. Nada disso você vai levar quando partir. Por favor, não tenha medo de ser feliz. Não deixe que pensamentos acerca do futuro te encham de incertezas. Tire o “e se” do seu vocabulário. Arranque este tormento da sua vida.

Beije como se os segundos estivessem congelados, ame como se a Terra tivesse parado de girar. Esqueça que existe o mundo lá fora. Os outros são sombras, eles não existem. Estamos sozinhos. Eu, você e a nossa história. Não vale a pena perder a calma, não vale a pena se magoar. Com o tempo as coisas se ajeitam e a gente amadurece. Não se preocupe se você não é o mais bonito, não olhe para os seus defeitos, não deixe que eles tenham o poder de te oprimir.

Ame sem medo, perdoe quantas vezes forem preciso. O que dói é a vida que não se vive.
Esqueça o imediatismo. Dedique-se ao outro e se esforce para ser o melhor. Que a sua felicidade seja fazer o seu amor feliz. Sem esperar nada em troca. Não espere o tempo chegar, a doença avisar. Não espere a vida dizer que é tarde demais.

Sunday, January 06, 2008

Virtude e Prazer

A virtude é algo de alto, de sublime, de majestoso, de invencível, de ininterrupto: o prazer algo de baixo, de servil, de frágil, de louco, cujo lugar de parada e cujo domícilio são os prostíbulos e tavernas.

Encontrarás a virtude no templo, no fórum, na cúria, em pé ante os muros, coberta de pó, cozida pelo sol, com as mãos calosas; o prazer o encontrarás freqüentemente, escondido e na procura das trevas, ao redor dos banhos, nos meio de esquentamento e nos lugares que têm medo das guardas, fraco, enervado, banhado de vinho e de perfume, pálido, mascarado e coberto de pomadas.

O sumo bem é imortal, não vem menos, ignora a saciedade e o remorso: uma mente reta não volta para trás, não odeia nunca a si mesma e não muda nada na sua vida, que é a melhor; o prazer ao invés cessa, exatamente quanto goza em demasia, e não tem muito espaço: por isso se vai logo, vem o enjôo e se enfraquece depois do impulso.

Não pode nunca haver nada estável no que, por sua natureza, está em contínuo movimento, assim não se pode encontrar alguma consistência em tudo que vem e vai, rapidamente, e se consome no próprio uso; porque, isso que está assim estruturado alcança, enfim, a meta quando vem menos e, no instante mesmo, no qual começa, já haverá começado a exaurir-se.

Em primeiro lugar, não é para obter prazer que se busca a virtude: ela também procura o mesmo, mas não é este o seu corpo principal, embora olhando para o outro lado, a consiga. O prazer não é a recompensa, nem a causa da virtude, mas um acréscimo, não é também aceito porque alegra, mas se é aceito, alegra da mesma forma.

O sumo bem não sente a necessidade de algo mais. Tu perguntas o que eu procuro obter da virtude? A própria virtude. Nada há, de fato, melhor, ela é por si mesma a recompensa. Eu sustento que ninguém tem condições de viver, agradavelmente, se, ao mesmo tempo não vive, também, de modo honesto! E afirmo com absoluta clareza que se pode obter aquela vida que defino agradável somente pela virtude.

Mas quem a ignora, não é tolo o suficiente para afundar-se nos prazeres perversos? Entre os primeiros, a arrogância, a presunção e a soberba, que os fazem sentir superiores aos outros. Depois o amor cego e excessivo pelos próprios bens, o gozo sem medida e a exultação exagerada por coisas pueris e inúteis. Por fim, a dureza e o desprezo que se compraz em ofender, a inércia e a moleza de um ânimo fraco que dorme sobre si mesmo.

A virtude afasta tudo isso, puxa as orelhas aos prazeres e os valida antes de acolhê-los; não dá tanta importância àqueles que aceita, todavia faz um uso cauteloso e se compraz em praticá-los, não de gozá-los. E a temperança, desde o momento que reduz os prazeres, é talvez uma ofensa feita aos direitos do sumo bem?

Tu abraças o prazer, eu os ponho freio; tu gozas o prazer, eu me sirvo dele; tu o consideras sumo bem, eu nem um bem; tu fazes tudo pelo prazer, eu nada.

(Sêneca.)

Wednesday, January 02, 2008

Elegância

Existe uma coisa difícil de ser ensinada e que, talvez por isso, esteja cada vez mais rara: a elegância do comportamento. É um dom que vai muito além do uso correto dos talheres e que abrange bem mais do que dizer um simples obrigado diante de uma gentileza.

É a elegância que nos acompanha da primeira hora da manhã até a hora de dormir e que se manifesta nas situações mais prosaicas, quando não há festa alguma nem fotógrafos por perto. É uma elegância desobrigada. É possível detectá-la nas pessoas que elogiam mais do que criticam. Nas pessoas que escutam mais do que falam. E quando falam, passam longe da fofoca, das pequenas maldades ampliadas no boca a boca.

É possível detectá-la nas pessoas que não usam um tom superior de voz ao se
dirigir a frentistas. Nas pessoas que evitam assuntos constrangedores porque não sentem prazer em humilhar os outros. É possível detectá-la em pessoas pontuais. Elegante é quem demonstra interesse por assuntos que desconhece, é quem presenteia fora das datas festivas, é quem cumpre o que promete e, ao receber uma ligação, não recomenda à secretária que pergunte antes quem está falando e só depois manda dizer se está ou não está.

O que é ser elegante? Não há livro que ensine alguém a ter uma visão generosa do mundo, a estar nele de uma forma não arrogante. Mas podemos citar alguns exemplos:

Oferecer flores é sempre elegante. É elegante não ficar espaçoso demais. É elegante você fazer algo por alguém, e este alguém jamais saber o que você teve que se arrebentar para o fazer... Não mudar seu estilo apenas para se adaptar ao outro. Não falar de dinheiro em bate-papos informais. Retribuir carinho e solidariedade. É elegante o silêncio, diante de uma rejeição.

A gentileza... atitudes gentis falam muito. Abrir a porta para alguém é muito elegante, dar o lugar para alguém sentar, também. Sorrir, sempre é muito elegante e faz um bem danado para a alma. Oferecer ajuda, olhar nos olhos ao conversar, é essencialmente elegante.

Pode-se tentar capturar esta delicadeza natural pela observação, mas tentar imitá-la é improdutivo. A saída é desenvolver em si mesmo a arte de conviver, que independe de status social: é só pedir licencinha para o brucutu do seu lado, que acha que "com amigo não tem que ter estas frescuras”.

Mas se os próprios amigos não merecem uma certa cordialidade, os inimigos é que não irão desfrutá-la.

Educação enferruja por falta de uso. E, detalhe: não é frescura!

(Toulouse Lautrec.)

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina. As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam. Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de alegria ou de dor no escuro são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia. Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem; rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma. O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam. A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário. Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência, se obscuros.

Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consuma com seu poder de palavra e seu poder de silêncio. Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave? Repara: ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


(Drummond.)