Thursday, October 26, 2006

Objetalização do Ser

Nos dias de hoje as pessoas estão totalmente voltadas ao plano
estético, elas se preocupam com a maneira como serão vistas,
avaliadas e aceitas. Elas procuram se enquadrar muitas vezes à
um padrão de beleza que contraria sua própria natureza,
sujeitando-se à processos agressivos para alcançar esse ideal.
Você acaba por se negar, vendendo-se à uma mera imagem que
te dá uma falsa sensação de segurança e a certeza por dentro de
que você não está sendo você mesmo, mas tentando aceitar-se
como um indivíduo que se enquadra à norma.

Embora as pessoas realmente se preocupem com a beleza em
algum aspecto, elas não gostam de admitir isso pois isso
demonstra fraqueza e insegurança. Elas aspiram segurança e
admiração, a beleza serve não só para você se sentir bem, mas
acima de tudo para mostrar para os outros. A questão da
efemeridade e a fragilidade da beleza nos atormenta pois sei
que hoje sou assim, mas amanhã posso ter banhas ou rugas, ou
os dois. Na verdade ninguém se sente bem assim, mas sinto que
estamos negando a vida e seu ciclo natural. Estamos rejeitando a
nossa própria natureza.

É natural que a juventude carregue consigo o ápice da beleza e
vigor pois é justamente o momento em que estamos
biologicamente prontos para a reprodução, mas as pessoas
querem este brilho da juventude para sempre e ela passa.

Inicia-se uma luta, uma busca incessante por manter ou resgatar
a beleza perdida. As pessoas esquecem-se que existe outras
maneiras de beleza e que a estética é a mais passageira e superficial
de todas elas.

Ser gordo ou velho é o mesmo que não ter controle do próprio corpo.
Todos se sentem donos de si e assim é inoculado o dever de
alcançarmos esta utópica beleza, custe o que custar. A convivência,
o dia a dia, as relações humanas e as possíveis possibilidades dentro
do sistema, direcionam as nossas escolhas, passando antes pelo
crivo social da mentalidade presente (e já instaurada) em nossa
sociedade. É ela quem aponta os caminhos e direcionam nossas
escolhas, exercendo total influência sobre cada indivíduo.

Em prol da beleza as pessoas são capazes de passar meses sofrendo
e depois de tudo alegam que “é o preço da beleza” como meio para
justificar a infelicidade e o abalo psicológico ao qual se submetem.
Ficam horas por dia, dias da semana e semanas dos meses
renovando o tal ritual. A cada ano existe pelo menos um período de
total rendição ao deus da Beleza. Uma beleza desprovida de
romantismo e essência, uma beleza apenas erótica, plástica,
massificada e banalizada.

A manutenção da beleza passa a ser algo fundamental, por ela as
pessoas derramam sangue, choram, se costuram e se mutilam,
por ela passam-se meses de cama, horas de dor, minutos de
sofrimento, segundos de desespero. Vivemos numa era
Frankensteiniana.

Que preço alto que se paga por uma mentalidade mercadológica.
O que iremos alcançar no fim deste caminho espinhoso? O que
levaremos desta vida?

As pessoas dormem um profundo sono, estão presas e
são vítimas de sua própria consciência. Quando acordarem,
será tarde demais... A alma estará desnutrida.

Wednesday, October 25, 2006

Espectro embalsamado

Ser fotografado parece algo tão simples, mas é muito mais complexo
do que imaginamos pois quando nos percebemos como sendo objeto
de interesse e vislumbramos uma máquina voyerista ao longe, logo
nossa consciência nos avisa e então passamos a nos comportar de
maneira diferente. A fotografia cria uma transformação ativa em
nossos corpos, metamorfoseamo-nos antecipadamente em imagem!

Fazemos com que nossa existência dependa do fotógrafo pois
acabamos por viver a angústia de uma filiação incerta. Quando
minha figura nascer, serei eu um indivíduo antipático ou distinto?
Terei um ar nobre ou pensativo? Queria que me fosse captada
uma textura moral fina... mas no meu interior, não sei como agir
sobre a minha pele.

Estamos todos condenados à fotografia, que pensa agir bem, a
ter sempre uma cara: meu corpo jamais encontra seu grau zero.
Presto-me portanto, ao jogo social, poso... mas este suplemento
de imagem não altera em nada a essência preciosa de meu
indivíduo que sou, fora de toda efígie. Meu “eu” profundo não
há de coincidir com esta imagem pesada, imóvel e obstinada em
que a sociedade se apóia.

Diante da objetiva, sou ao mesmo tempo: aquele que me julgo,
aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo
me julga e aquele que serve para exibir a sua arte. A foto-retrato
é o espartilho de minha essência imaginária, um campo cerrado
de forças. Um verdadeiro distúrbio de propriedade onde sou
advento de mim, onde quatro imaginários se cruzam, se afrontam
e se deformam.

Não paro de me imitar e a cada vez que me faço ou permito-me
fotografar, sou tocada por uma sensação de inautenticidade onde
meu ser é questionado. Imaginariamente a fotografia representa
esse momento muito sutil em que não sou sujeito, nem objeto.
Mas um sujeito que se sente tornar-se objeto.

Vivo então uma microexperiência da morte,
torno-me verdadeiramente espectro...

Friday, October 13, 2006

Tratar o sintoma ou a doença?

Ah, seu presidente! Até que enfim consegui falar com o senhor…
Não sei o que me deu, mas é que eu estou tão cansada de ouvir
metas e planos e promessas!

Não quero mais saber do passado…
o que você fez ou deixou de fazer. Olhemos apenas para frente,
olhemos pois à nossa volta! Você é o Presidente do meu país e por
isso desejo que o seu mandato seja o melhor.

Chega de tratar assuntos genéricos, chega de se apoiar em valores
absolutos. Vocês complicam tanto o fácil! Pra quê tanto alarde se
o que queremos é tão pouco?

Manifesto-me, pois quem não se manifesta mediante ao submundo
do qual fazemos parte, ajuda a destruí-lo aos poucos. O que adianta
tratar o sintoma? Vamos curar a raiz dos males!

Saiba que nós estamos dispostos a nos unirmos, mas falta
motivação... Os recursos são escassos e nossos gritos de socorro são
sempre abafados com a mais fria e cortante indiferença. Poxa seu
presidente, pegue pesado nas reformas de base!

Queremos saúde, queremos cultura, educação... queremos condições
básicas para que a vida seja sustentável... não precisa de muito!
Apenas a sua mão presidente, devolvendo-nos a dignidade perdida.

Wednesday, October 04, 2006

Reflexo da alma

Acordo de manhã, permaneço estática na cama.
Meus olhos se movem vagarosamente. Percorro
os espaços em todas as suas extensões... ao lado
vejo minha irmãzinha dormindo.

Comovo-me, fico ali imóvel contemplando sua
arrebatadora beleza que de tão cândida me deixa
perplexa. É uma beleza tão natural e pura...
tão espontânea e despreocupada que por isso
mesmo enche meus olhos e encanta a minha
alma.

Como é doce a beleza sem pretensões que não
procura atingir olhares alheios!

Flor ou perfume?
Aparência ou essência?

Somos verdadeiramente
belos quando nem nos damos conta disso.