Thursday, October 27, 2011

Freedom


“Ser livre é ter o direito de dizer NÃO para tudo aquilo que está te matando,
para tudo aquilo que não produz vida.” (Villy Fomim).

Porta-jóias


Sem mais nem menos, sinto-me batizado por uma Presença. Tudo me encanta, tudo me seduz. Passo a gostar de pequenos gestos, relembrar momentos fugidios que perduraram em minha retina e me deram enorme alegria. Em mim, ressuscitam olhares, toques e sílabas soltas que marcaram a minha alma. Sei que esta presença estranha que me possui é o Espírito. Ele abre um estojo de jóias, que é a saudade, para ressuscitar tudo o que já me fez sorrir. Estou convencido de que só percebo a sombra de Deus, mas ela é formosa como a asa de uma graúna, gentil como o sorriso de uma criança e forte como o olhar do ancião.

O Vento sopra e, de repente, tudo me fascina. A genialidade poética do Chico Buarque e a doçura do Henry Nouwen se somam à erudição de autores que leio e fico com um impulso de correr, saltar. Meus olhos se enchem de azul, meu coração acolhe tudo o que vem da negritude. Minha pele se cobre com o rubro da sensualidade. Sinto-me vivo. Percebo o abraço divino e tudo me arrebata, tudo me endoidece. Vejo-me encharcado de eternidade, assombrado pela vastidão sideral, atraído pelo infinito, desejoso pelo devir. Tenho o olhar absorto no horizonte improvável. O Espírito vem e tenho anseio de ficar só numa catedral vazia. Sua presença me conduz a trilhas bucólicas. Guardo a sensação de que este companheiro, aquele que faz arder corações, me acompanha.

O Espírito me reveste de amor pela vida. Desfaço os nós da discórdia, quebro as lógicas do ódio e me inundo de bondade. Ganho o ímpeto de gritar: sou de um Reino onde justiça, paz e alegria bailam juntos. Por algum motivo, no êxtase do sagrado, perfumo a casa com velas aromáticas, leio Pessoa e escuto Bach. Lembro de quem perdi e acalento os que me são caros. O Espírito me deixa com a alma à flor-da-pele. Sinto a vida em estado puro.

(Ricardo Gondim).

Recolhimento

Depois de tantas decepções e safanões existenciais, quero mais é sorver o silêncio como bálsamo, deixar-me conduzir pela vastidão e embrenhar-me no vazio. Ouvir a partir das ausências pode ser terapêutico. Minha solitude pertence às estepes. Careço da grandeza que só as colinas oferecem. Se eu me sentar na pedra que se inclina no precipício, desacompanhado dos tumultos, ouvirei, no sicio da aragem, o essencial. A quietude me remenda. Se fui retalhado na arena da vida, em algum esconderijo, sei que me costuro. Posso fazer de algum lugar remoto o atelier do supremo artesão.

Minha alma anseia por este lugar, onde não vou esbarrar em ninguém. Para que homogeneizar-me? O fardo de cumprir o padrão imposto seria um suicídio em vida. Ficar igual seria despersonalizar-me. No anonimato, recobro antigas ousadias, na amplidão do nada, aprendo a não gastar o resto de minha história a procurar aportar no impossível ancoradouro do contento. Recuso-me continuar; tenho que reconciliar-me com inadequações sem precisar responder a ninguém sobre o porquê dos devaneios que lotam a minha alma de poesia. Quando me percebo só, perco o medo de questionar. Desacompanhado, não assusto, não frustro, não decepciono.

Ao me retirar, ganho alguma chance de lidar com os fragmentos mal encaixados de sentimentos, ideias e comportamentos. Esses cacos, por outros desprezíveis, fazem parte de minha vida. Despojado de tudo o que possa roubar a atenção, enfrento demônios, converso com anjos e desmascaro fantasmas. Nas pegadas do Nazareno, sinto o apelo de perder-me para os aplausos, de encolher-me diante do fascínio da glória. Cada vez mais, estou bem certo de que é nesta estrada onde se aprende: o mal tem sede de brilho e a verdadeira vida se esconde na simplicidade.

(Ricardo Gondim).

Monday, October 24, 2011

Tesouro inesgotável

“Não entregues tua alma à tristeza,
não atormentes a ti mesmo em teus pensamentos.
A alegria do coração é a vida do homem,
e um inesgotável tesouro de santidade;
a alegria do homem torna mais longa a sua vida.
Tem compaixão de tua alma e torna-te agradável a Deus, e sê firme;

Concentra o teu coração na santidade,

E afasta a tristeza para longe de ti;
Pois a tristeza matou a muitos.
E não há nela utilidade alguma,
A inveja e a ira abreviam os dias,
E a inquietação acarreta a velhice antes do tempo.

Um coração bondoso e nobre, banqueteia-se continuamente,
pois seus banquetes são preparados com solicitude”.
(Eclesiástico 30, 22-27)


Thursday, October 20, 2011

Us

Thursday, October 06, 2011

Amar é...



"Amar é justamente quando o susurro funciona mais do que um grito." (Fabrício Carpinejar.)

Amor mesmo

Para o amor, um banco de praça já basta. Ou ficar na frente do portão. Ou uma xícara de café.
Amor mesmo é um filme de baixo orçamento. (Fabrício Carpinejar)

Wednesday, October 05, 2011

Amor discreto

O amor espalhafatoso recebe a fama, mas o amor contido é o mais profundo. Ao procurar o amor empresarial, desprezamos o amor funcionário público, que atende às ligações e escreve nossos memorandos. Ao perseguir o amor de cinema, desdenhamos o amor de teatro, de quem encena a peça todo dia ao nosso lado, sempre com uma interpretação nova a partir das falas iguais.

Ao cobiçar o amor sensual de lareira e restaurante, apagamos a delícia de comer direto nas panelas, sem pratos, sem medo do garçom. Ao perseguir a aventura, negamos a permanência. Preocupados em ser reconhecidos mais do que amar, esquecemos a verdade pessoal e despojada do nosso relacionamento. Recusamos o amor constante, o amor cúmplice.

Não valorizamos a passionalidade silenciosa, a passionalidade humilde, a passionalidade generosa, a passionalidade tímida, a passionalidade artesanal. O passional pode ser discreto na aparência e prático na ternura. O amor mais contundente é o que não precisa ser visto para existir. E continuará sendo feito apesar de não ser reparado.

O amor real é secreto. É conservar um pouco de amor platônico dentro do amor correspondido. É reservar as gavetas do armário mais acessíveis para as roupas dela, é deixar que sua mulher tome a última fatia da pizza que você mais gosta, é separar as roupas de noite para não acordá-la de manhã. E nunca falar que isso aconteceu. E não jogar na cara qualquer ação. E não se vangloriar das próprias delicadezas.

Buscá-la no trabalho é o equivalente a oferecer um par de brilhantes. Esperá-la com comida pronta é o equivalente a acolhê-la com um buquê de rosas vermelhas. São demonstrações sutis, que não dá para contar para os outros, mas que contam muito na hora de acordar para enfrentar a vida.

(Fabrício Carpinejar.)

Adele