Monday, June 19, 2006

Avidez

Avidez que brota na alma
Avidez latejando no corpo
Da tua boca, resta em mim o gosto.
Sagacidade, tú não a tem.
E por isso me convém
Dizer que não amo ninguém.
Mas então o que é isso que fulmina no peito,
Corrói o coração,
E percorre minhas veias?
Então o que é isso que lateja na alma
Seca a boca
E dos olhos tira o brilho?
É o amor pungente pelo teu sarcasmo
É a procela que travaste no oceano
Vislumbre, sem forma, sem cor
Desta incompetência adolescente
Desta opulência guardada em mim
Que irá reverberar se não deixares de me amar.

Wednesday, June 14, 2006

Sampa 451 anos

Sampa... São Paulo... Maloca querida...
Você é tão boa que até o Inverno vem passar o Verão aqui.
Coração que pulsa com suas veias entupidas, à beira de um colapso...
Inversões térmicas... Ilhas de calor... Um paraíso!
Cidade de concreto que empilha seus habitantes...
Massifica, macera e mortifica.
Diante dela não há indiferença que resista,
Vivemos nela, e ela em nós.
A cidade se move e nos instiga.
Sou talvez como uma Macabéa entre tantas outras.
Uma gota no oceano, um grão de areia...
Mas consciência não me falta.
Ah... Minha cidade..!
Veias entupidas... à beira de um colapso...
A Liberdade é econômica,
A Igualdade é jurídica...
E a Fraternidade é burguesa.
São Paulo, 451 anos...
Uma verdadeira Rapsódia Mundial.

Tuesday, June 13, 2006

Mudos Atalhos

Tantálica alma que me enlouquece
Que dor é essa absurda?!
Devora-me as entranhas
E te sinto atroz dilacerar-me
Este caminho solitário de paradas rítmicas...
Atmosfera e olhos soturnos.
Réquiem de uma lúgubre alma
Dolências mádidas apodrecendo.
Lágrima Constelarmente pura e vaporoza
Volátil como a rosa
Rosa inútil!
Árvores esgalhadas, nervosamente,
epileticamente – espectros de esquecimento
e tédio, braços múltiplos e vãos
Sem apertar nunca outros braços amados!...
...Solta-me... Solta-me!
Suo frio, meus olhos estão molhados...
O cheiro das trevas torvas
O tilintar das estrelas agudas...
Vá embora! Dá-me a fórmula!
Não quero Nada...
Anestesia e o som do silêncio.
Oh! Mudos atalhos...

Thursday, June 01, 2006

Mitificação e necrose do homem moderno

Andamos num mundo onde nada é vão, somos seres conflitantes, temos uma ânsia louca, uma profunda avidez de entender o que ocorre à nossa volta. O tempo que delimita nossa existência mais parece um truque, um labirinto ao qual todos estamos condenados. Nossa percepções são expansivas, percorremos o infinito diluindo e decantando emoções. Fazemos parte de um quebra-cabeças assim como todos os seres inanimados, porém nos sentimos como uma peça do jogo, nos vemos como um enigma e vivemos nossas vidas tentando decifrar o despropósito.

Assim nasce o mito, uma corporificação de todas as forças vitais e dinâmicas, com sua intencionalidade própria procura alcançar verdades e o desocultar do ser. O mito em nossas vidas exprime as aspirações mais profundas de uma experiência integral; une alma, mente e corpo, eleva nossa espécie aos céus, codifica o inconsciente, dá asas à um ser limitado.
O mito está intimamente ligado à subjetividade do homem, falta-lhe a neutralidade e a objetividade, pois tudo é captado numa única experiência total e não diferenciada. Ele é o cerne da compreensão, fruto de uma consciência caótica, puramente sensitiva e pré-científica, é a interpretação do mundo, do macro e do micro cosmo; dando consistência ao vislumbre. Outrora como cobertura poética, procurava alcançar verdades, mas atualmente o mito procura alcançar mentiras.

O homem moderno não consegue mais dar um sentido positivo à sua própria atuação, ele procura assim fugir... Evita o tempo, esquece o momento presente, mergulha no mundo do “entretenimento” para aliviar o peso de seu tempo cotidiano e sem sentido. Não questiona a realidade, deixa prevalecer a mentalidade do comodismo e a lei do menor esforço, o homem moderno se apóia em arquétipos generalizados e mentirosos, assim espquece suas falhas, hipnotiza seus sentidos e anestesia sua alma... uma necrose sutil é inoculada em nossas vidas. Matamos o tempo e o tempo nos enterra, apanha e devora tudo o que amamos. Nos preocupamos sempre com o corriqueiro e por isso perdemos o crescer da vida. A verdade não é absolutamente precisa, e a mentira não é uma absoluta incoerência. O tempo é negligenciado, ter e ser são sinônimos, o sentido da vida se dissipa com o vento. A essência esvaece e nosso ser apodrece.