Sunday, January 25, 2009

Toda a criação geme

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação do filho de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta as angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo.

(Romanos 8:18-23)

Saturday, January 17, 2009

O Silêncio

Vamos ouvir esse silêncio meu amor: o astro pelo céu em movimento. O som do gelo derretendo. O barulho do cabelo em crescimento. A música do vento. A matéria em decomposição. A barriga digerindo o pão. Explosão de semente sob o chão. Diamante nascendo do carvão. Antes de existir a voz existia o silêncio. O silêncio foi a primeira coisa que existiu.

(Arnaldo Antunes.)

Monday, January 12, 2009

Aprenda a sofrer

Amigo, entre de cabeça na sua dor. Aceite que é ruim. Não tente disfarçar.Desocupe a mente e viva o seu sofrimento. Evite o bar. Fuja dos conselheiros. Soluce, choromingue, ruja, mas não armazene agonia.

Amigo, esperneie, grite, teatralize, mas não continue a engolir seco. Converse com as estrelas, contemple os precipicios. Afunde-se em fossas. Rememore seus momentos tristes. Não limpe as lágrimas. Jejue, rasgue véus. Deixe a barba por fazer. Amigo, corra até a exaustão, enfrente a sua mágoa. Tranque-se para encarar o seu fracasso. Recolha-se para abraçar a sua derrota. Volte o rosto contra a parede. Ajoelhe-se. Vista-se de saco e se sente sobre um monte de cinza. Raspe a cabeça. Descalce os pés. Contrate um taxi, por duas horas vagueie à deriva. Desassossegue com sonetos. Escute fado.

Amigo, repita silenciosamente: “Cordeiro de Deus, que sofreste na cruz, tem misericórdia de mim”. Caminhe cabisbaixo, ria pouco. Entre numa catedral vazia e ouça o silêncio. Considere a sina de quem nunca viu a luz. Visite uma escola para crianças com síndrome de Down. Ajude os AA’s. Doe para a clínica que reabilita toxicômanos.

Amigo, Deus desceu do céu, tabernaculou entre os homens, e sofreu como você. Ele teve um filho sem pecado, mas nenhum sem sofrimento. Deus consola. Ele sabe o que é ficar sem chão. Soletre esperança como obstinação e fé como coragem. Trinque os dentes e prossiga.

(Ricardo Gondim.)

Friday, January 09, 2009

Umbigo

Segundo Jung,inconscientemente, guardamos a saudade de um tempo em que fomos o centro do universo. Sim, todos, um dia quando tecidos no ventre de nossa mãe, naquele mundo líquido, éramos o foco da atenção física, psíquica e, com algumas exceções, emocional dela. Nascemos, e nos primeiros anos de vida precisamos do cuidado meticuloso de adultos para sobrevivermos a fragilidade inerente à vida humana. Só depois, com o passar do tempo, aprendemos sobre o próximo e descobrimos a necessidade de dividir espaço com o outro.

Com a maturidade, aprendemos que existem outras pessoas com mais talento, mais riqueza e mais beleza física do que nós. Deparamos com gente nascida em melhores berços, brindada com oportunidades mais excelentes. Muitas angústias e invejas se originam dessa incapacidade de lidar com a crua realidade de que o mundo não gira ao nosso redor e que nossos talentos e potencialidades não nos transformam em titans, anjos, deuses, super-homens, ídolos, messias ou “eleitos da última hora”.

Os neuróticos não aceitam a vida real e tentam se transferir para o mundo dos sonhos, das idealizações e das onipotências. Para chegarem lá, alguns se valem da religião, outros se entregam ao ativismo profissional ou consumismo. Não importa! O resultado é que todos acabam doentes.

(Ricardo Gondim.)

Para acalmar meu coração

Tornei-me escafandrista que vasculha as cavernas abissais de sua própria alma, um
arqueólogo que varre o fino pó de suas memórias, um espiritualista que exorciza os
demônios de seu passado. E isso me acalma o coração.

(Ricardo Gondim.)

De agora em diante

Aceitarei andar ao lado dos simples e de conviver com os humildes. Quero conversar despretenciosamente. Resignado, desejo viver cada vão momento como sagrado. Transformarei meu almoço numa liturgia; celebrarei meus encontros solenimente; e cantarei minhas músicas prediletas como hinos de agradecimento à vida. Abdico de estar certo. De agora em diante, confessarei abertamente minhas incertezas. Não rolarei na cama, insone com a opinião alheia; não retrucarei quando me sentir atingido. Não tentarei segurar o amor de quem amo. Deixarei que cada um acerte seu caminho; arriscarei viver com gratuidade. Preciso acreditar que ninguém me deve coisa alguma. Vou aventurar-me a fazer o bem e não cobrar nada em troca.

(Ricardo Gondim.)

Liberdade e Amor

O Deus que não se vulnerabilizou à possibilidade de ser rejeitado não ama. E o Deus incapaz de amar não é bíblico. Ninguém pode sujeitar o ser que ama com o intuito de conquistar seus afetos. O ser amado precisa sentir-se livre para mudar, rejeitar ou sumir; e que, se eu lhe ofereço a minha afetividade, sofrerei pelas suas escolhas. A pessoa amada permanece livre para mudar, rejeitar-me e infrigir-me. De fato amar é oferecer-se desprotegido à dor (segundo Freud). Quem ama com amor infinito corre o risco de sofrer uma dor infinita. O amor infalível não é amor. A dor é a outra face do dom de si mesmo, sem reservas, gratuito, como é todo amor verdadeiro. Quem acredita que pode exigir de Deus uma criação onde o amor seja infalivelmente feliz, pretende um amor sem um dom de si, isto é, um não amor, um egoísmo onde a pessoa a quem digo amar se converte em instrumento determinado e cego, sem a capacidade de expressar livremente seu ser.

(Ricardo Gondim.)