Tuesday, March 31, 2009
Saturday, March 21, 2009
Todos somos Irmãos
Todos são estrangeiros em sua própria pátria. Ninguém se sente realizado. As experiências existenciais são incompletas. As fontes de água não dessedentam; nenhuma festa é perfeita; nenhuma aventura satisfaz. Viver não basta. Não adianta querer sonhar com a mesma coisa duas noites seguidas. O sexo de ontem não será igual ao de amanhã. A onda do mar nunca retorna como era; o rio morre a cada instante. Todos têm dúvidas. Só os imbecis vivem com certezas.
Os psicopatas não conhecem a culpa. O convívio dos que se amam é complicado. Intolerâncias recrudescem quando se defendem absolutos; invejas se escondem nas convicções; frustrações se sublimam nas militâncias; covardias se chamam de prudência. Todos são frágeis. Violências camuflam fraquezas; hostis são patéticos; os estúpidos, ordinários; os poderosos, pequenos. Os leões não comandam as selvas, as lebres não superam as tartarugas; os tubarões não tiranizam os oceanos. No coração dos imperadores habitam crianças indefesas; mesmo o perverso torturador tem carências; os cáusticos religiosos se enternecem com belezas.
Todos são medrosos. A busca insana por segurança e estabilidade denuncia precariedade; o medo do amanhã gera ansiedades; a contingência existencial pesa como solidão. Perdeu-se o aconchego do útero e não há como fugir da orfandade universal. Ecoa pelas galáxias um grito que implora por um Pai. Ouve-se a pergunta: “cadê o colo da minha mãe divina?” A fase oral da humanidade não acabou e todos buscam aquele seio que lhes nutriu a vida.
Todos são frustrados. A história não se desenrolou como prevista. A miséria esbofeteia os idealistas; nenhuma resposta conseguiu explicar o pranto desesperado de milhões de crianças; as hecatombes são perversas demais para que se acolham os simplistas. O holocausto, a morte parcimoniosa dos pobres, a injustiça capitalista, o sistema político ensimesmados continuam desafiando teodicéias, humanismos, ideologias, e existencialismos. Não se conseguiu solução concreta para os desmandos da história.
As espadas nunca se transformaram em arados. Ninguém enxugou as lágrimas das mães que lamentaram os seus filhos em covas rasas. A Nova Cidade ainda não desceu do Céu. Todos são angustiados. A morte espreita os lares feito uma bruxa de mau agouro. A beleza das cores, o prazer do vinho, a alegria do amor têm data marcada para terminar. A vida é efêmera. Ninguém tolera viver com uma guilhotina prestes a descer. Tudo é imprevisível. Passarão o ar fresco da montanha, o canto da cigarra, o riso espontâneo do palhaço, o grito de gol nos estádios. É preciso aprender a dizer adeus. O tempo, inclemente, cobre a vida de fuligem. O poema mais comovente um dia não será citado; a orquestra diáfana como véu de noiva, se esgarçará. A canção que ressuscita saudade tem o mesmo destino do perfume mais caro, lavado com sabão.
Todos somos irmãos. Ninguém é melhor do que ninguém. Todos sofrem e todos riem; iguais no nascimento e na morte; criados com uma lacuna infinita, que só o próprio Deus pode completar.
(Ricardo Gondim)
Os psicopatas não conhecem a culpa. O convívio dos que se amam é complicado. Intolerâncias recrudescem quando se defendem absolutos; invejas se escondem nas convicções; frustrações se sublimam nas militâncias; covardias se chamam de prudência. Todos são frágeis. Violências camuflam fraquezas; hostis são patéticos; os estúpidos, ordinários; os poderosos, pequenos. Os leões não comandam as selvas, as lebres não superam as tartarugas; os tubarões não tiranizam os oceanos. No coração dos imperadores habitam crianças indefesas; mesmo o perverso torturador tem carências; os cáusticos religiosos se enternecem com belezas.
Todos são medrosos. A busca insana por segurança e estabilidade denuncia precariedade; o medo do amanhã gera ansiedades; a contingência existencial pesa como solidão. Perdeu-se o aconchego do útero e não há como fugir da orfandade universal. Ecoa pelas galáxias um grito que implora por um Pai. Ouve-se a pergunta: “cadê o colo da minha mãe divina?” A fase oral da humanidade não acabou e todos buscam aquele seio que lhes nutriu a vida.
Todos são frustrados. A história não se desenrolou como prevista. A miséria esbofeteia os idealistas; nenhuma resposta conseguiu explicar o pranto desesperado de milhões de crianças; as hecatombes são perversas demais para que se acolham os simplistas. O holocausto, a morte parcimoniosa dos pobres, a injustiça capitalista, o sistema político ensimesmados continuam desafiando teodicéias, humanismos, ideologias, e existencialismos. Não se conseguiu solução concreta para os desmandos da história.
As espadas nunca se transformaram em arados. Ninguém enxugou as lágrimas das mães que lamentaram os seus filhos em covas rasas. A Nova Cidade ainda não desceu do Céu. Todos são angustiados. A morte espreita os lares feito uma bruxa de mau agouro. A beleza das cores, o prazer do vinho, a alegria do amor têm data marcada para terminar. A vida é efêmera. Ninguém tolera viver com uma guilhotina prestes a descer. Tudo é imprevisível. Passarão o ar fresco da montanha, o canto da cigarra, o riso espontâneo do palhaço, o grito de gol nos estádios. É preciso aprender a dizer adeus. O tempo, inclemente, cobre a vida de fuligem. O poema mais comovente um dia não será citado; a orquestra diáfana como véu de noiva, se esgarçará. A canção que ressuscita saudade tem o mesmo destino do perfume mais caro, lavado com sabão.
Todos somos irmãos. Ninguém é melhor do que ninguém. Todos sofrem e todos riem; iguais no nascimento e na morte; criados com uma lacuna infinita, que só o próprio Deus pode completar.
(Ricardo Gondim)
Wednesday, March 11, 2009
Futuro Sombrio de um Progresso Ilusório
No limiar de um novo ano, é bom refletir para onde vamos. O futuro virá como resultado das escolhas presentes. Não adianta fazer votos de um ano cheio de paz e prosperidade se insistirmos nos erros que produziram os desastres atuais. Caso não aconteçam mudanças radicais nas políticas e governos de toda a comunidade internacional, o meio ambiente vai se deteriorar. Não é preciso conhecimento científico para perceber que o derretimento das calotas polares, fruto do aquecimento global, devastará o mundo em curtíssimo prazo. Se a indústria não mudar para novas fontes energéticas, que não poluam tanto quanto a queima de petróleo, logo cidades praianas serão inundadas pelas marés. O Brasil tornou-se um dos maiores poluidores do planeta com as queimadas da Amazônia. Nosso crime ambiental é duplamente qualificado, pois, além de dizimar a mais rica biodiversidade, compromete a saúde de 6 bilhões de almas. A consciência ecológica tem de se tornar tema recorrente dos sermões. As igrejas deveriam marchar pela preservação da vida animal e vegetal, e conseguir debater melhor sobre ecologia, vendo sua importância com a ecologia.
O abismo entre as nações ricas e pobres crescerá. A atual ordem econômica do mundo não contribui para o desenvolvimento dos países do terceiro e quarto mundo. Devido às relações comerciais protecionistas dos poderosos e à vantagem desproporcional que levam ao negociar tecnologia por produtos agrícolas, os bolsões de miséria da África, Ásia e América Latina não se acabarão. O resultado dessa macroinjustiça social produzirá levas migratórias com grande rejeição dos ricos que fecharão suas fronteiras aos menos favorecidos; recrudescerão os ódios raciais, proporcionando um clima perfeito para radicalismos religiosos e étnicos. Se as multinacionais financeiras, industriais e tecnológicas tivessem um pouco mais de alma, haveria um clima para propor perdão às dívidas externas dos países mais pobres, estancando a sangria desatada de dinheiro dos mais miseráveis para os grandes bancos – muitas, produzidas por regimes ditatoriais, como a brasileira.
As megalópoles continuarão crescendo sem conseguir dar qualidade de vida aos seus habitantes. O número de cidades com mais de um milhão de habitantes duplicará em poucos anos, gerando demandas altíssimas de água potável, energia elétrica, alimentos, esgoto e reciclagem de lixo. Para viver em centros tão grandes, as famílias se submeterão à baixa qualidade de vida, perigosa e impessoal. Aumentará o controle estatal sobre a vida das pessoas, com câmeras fiscalizando cada pequeno delito dos cidadãos e multando cada infração do trânsito. A vida urbana encarecerá como uma carga tributária pesadíssima.
Com todos os avanços tecnológicos como telefone celular, internet e aviões a jato, as pessoas continuarão sem tempo. As crescentes demandas por eficiência e a competitividade do mercado de trabalho exigirão longas horas de atividade profissional e acarretarão pouco tempo para o lazer e para aprofundar relacionamentos humanos. Os casamentos durarão menos, multiplicando os divórcios. Isso produzirá crianças menos equilibradas emocionalmente e menos dispostas a se abrir para o risco de amar. A pornografia seduzirá, pois as pessoas buscarão se satisfazer sexualmente sem precisar se expor ao próximo.
O mundo está muito doente e prestes a entrar em estado terminal. Nunca se precisou tanto da união de todos. Necessitamos nos despir de nossos orgulhos nacionalistas, nossos preconceitos ideológicos, nossos medos religiosos e trabalhar para entregar um mundo melhor à próxima geração. O novo ano está próximo e mais uma vez precisamos agir como astros e luzeiros no meio de uma geração perversa e corrompida.
(Ricardo Gondim)
O abismo entre as nações ricas e pobres crescerá. A atual ordem econômica do mundo não contribui para o desenvolvimento dos países do terceiro e quarto mundo. Devido às relações comerciais protecionistas dos poderosos e à vantagem desproporcional que levam ao negociar tecnologia por produtos agrícolas, os bolsões de miséria da África, Ásia e América Latina não se acabarão. O resultado dessa macroinjustiça social produzirá levas migratórias com grande rejeição dos ricos que fecharão suas fronteiras aos menos favorecidos; recrudescerão os ódios raciais, proporcionando um clima perfeito para radicalismos religiosos e étnicos. Se as multinacionais financeiras, industriais e tecnológicas tivessem um pouco mais de alma, haveria um clima para propor perdão às dívidas externas dos países mais pobres, estancando a sangria desatada de dinheiro dos mais miseráveis para os grandes bancos – muitas, produzidas por regimes ditatoriais, como a brasileira.
As megalópoles continuarão crescendo sem conseguir dar qualidade de vida aos seus habitantes. O número de cidades com mais de um milhão de habitantes duplicará em poucos anos, gerando demandas altíssimas de água potável, energia elétrica, alimentos, esgoto e reciclagem de lixo. Para viver em centros tão grandes, as famílias se submeterão à baixa qualidade de vida, perigosa e impessoal. Aumentará o controle estatal sobre a vida das pessoas, com câmeras fiscalizando cada pequeno delito dos cidadãos e multando cada infração do trânsito. A vida urbana encarecerá como uma carga tributária pesadíssima.
Com todos os avanços tecnológicos como telefone celular, internet e aviões a jato, as pessoas continuarão sem tempo. As crescentes demandas por eficiência e a competitividade do mercado de trabalho exigirão longas horas de atividade profissional e acarretarão pouco tempo para o lazer e para aprofundar relacionamentos humanos. Os casamentos durarão menos, multiplicando os divórcios. Isso produzirá crianças menos equilibradas emocionalmente e menos dispostas a se abrir para o risco de amar. A pornografia seduzirá, pois as pessoas buscarão se satisfazer sexualmente sem precisar se expor ao próximo.
O mundo está muito doente e prestes a entrar em estado terminal. Nunca se precisou tanto da união de todos. Necessitamos nos despir de nossos orgulhos nacionalistas, nossos preconceitos ideológicos, nossos medos religiosos e trabalhar para entregar um mundo melhor à próxima geração. O novo ano está próximo e mais uma vez precisamos agir como astros e luzeiros no meio de uma geração perversa e corrompida.
(Ricardo Gondim)
Tuesday, March 10, 2009
Borboleta
Cansada de perder-me em mim e me afundar mais cada vez, resolvi abandonar-me e despedir-me de mim mesma. Não dava mais para convivermos assim. Fiz do meu corpo uma masmorra fétida que aprisionava meu espírito. Só olhava para pro meu umbigo, para as minhas crises, meus problemas e para as minhas neuroses. Foi assim, saturada de mim que enfim abandonei o casulo do meu corpo. Não me conformava com aquela realidade tão asquerosa e cheia de desilusão, havia cansado daquela vida de lagarta. As outras lagartas caçoavam de mim, diziam que eu estava louca e que aquela era a única realidade que existia, que não havia nada além daquilo. Apontavam a minha feiúra, minha natureza destrutiva e miserável. Eu, porém, decidi me preocupar apenas com as coisas eternas e imutáveis, elevei meus olhos ao céu, resolvi não dar ouvidos ao que elas diziam. E quanto mais eu resistia ao sarcasmo e incredulidade delas, mais eu sentia algo emergir e explodir no meu peito. Resisti firme, até as minhas lágrimas me cobrirem de dor. Agora, posso finalmente dizer pertenço à uma nova natureza, sou uma flor alada e posso voar pelo céu em movimento pois no fundo, eu sempre soube que pertencia a algo maior.
A Senda do Amor
Não há sentimento mais nobre, mais intrigante, mais desejado que o amor. Quando amamos não alcançamos a consciência exata do que estamos fazendo.Muitas vezes, só nos damos conta do amor muitos anos depois. Em algumas circunstâncias o apego não é a solução, mas complica ainda mais a vida da gente. Entregues e fragilizados, sofremos horrores.
Nem sempre o amor coincide. Amamos quem nos despreza e esperamos por que nos vira as costas. Pais amargam o abandono dos filhos. Rapazes choram com o desdém da namorada. Mulheres sentem-se punidas com a deserção do amante.
A senda do amor tem canteiros com roseiras e abrolhos. Os que se atrevem a trilhá-la precisam saber de antemão que podem ser premiados com a alegria, mas se arriscam a amargar profunda tristeza. Ao contrário do que prometem os folhetins e dramalhões baratos, amar requer coragem. A íntima relação entre amor e virtude faz com que o amor precise de alguns tributos.
Amor e coerção se contradizem. Para que o amor aconteça, as gaiolas devem ser abertas, os cadeados destravados e os caminhos liberados. Um casal não pode tentar segurar uma relação com ameaça, suborno ou manipulação. Um pai não pode pretender ganhar o amor de um filho à força. Na parábola do filho pródigo, o pai deixou o filho partir porque sabia que a única força que o traria de volta era seu testemunho de integridade e bondade. “Vou voltar. Na casa de meu pai os empregados são tratados com dignidade”, repetia o rapaz. Amor acontece no limite do abandono, mas se fortalece com a livre decisão de dizer: “Contudo, eu quero”.
Amor e traição não combinam. Para ser real, o amor precisa da segurança que as palavras sejam autênticas, os gestos sinceros e as intenções puras. A suspeita mata o amor; o engano o asfixia. Só com confiança existe carinho. Apenas a sinceridade transmite a força do bem-querer.
Amor e altruísmo são quase sinônimos. Os egoístas, os avaros, nada percebem sobre afeição. Para o relacionamento ser significativo precisa esquecer de si para dedicar-se ao outro. Quem ama não contabiliza custos. Quando presenteia, não mede esforços para dar o melhor. O amante sai da lógica do mínimo; pensa em superlativos.
Amor e inclemência se anulam. Só os apaixonados se idealizam. Quem ama não desiste, mesmo reconhecendo as imperfeições do outro. Para o amor continuar é necessário perdão – algumas vezes, setenta vezes sete em um só dia.
Todos esses princípios são nobres e bonitos, mas para um homem amar uma mulher, mas amar de verdade, é preciso saber fazer cafuné; em seu louvor espalhar um canto; andar de mãos dadas, escrever bilhetes ridículos; ter preocupação infundada, chorar com poesia triste; acompanhá-la vez por outra para fazer compras; notar o novo corte de cabelo e jamais, em hipótese alguma, dizer que ela engordou.
Para um amigo amar o amigo é preciso saber silenciar; nunca fazer pergunta indiscreta; não cobrar atenção; estar perto na hora do sufoco; manter-se longe na hora da vergonha; não esperar para ser chamado. Para um pai amar os filhos é preciso saber elogiar os garranchos a lápis como obras de arte; não alegar que na sua juventude nunca teve as oportunidades que proveu para a família; ficar feliz se o filho preferir ser poeta e não engenheiro, músico ao invés de médico, artesão no lugar de aviador.
Amar não é complicado, nem difícil. Basta ter o coração dócil como o das crianças, sincero com os adolescentes, cuidadoso como os adultos e prudente como os idosos. Amar é um presente gratuito de Deus, porque ele é Amor.
(Ricardo Gondim)
Nem sempre o amor coincide. Amamos quem nos despreza e esperamos por que nos vira as costas. Pais amargam o abandono dos filhos. Rapazes choram com o desdém da namorada. Mulheres sentem-se punidas com a deserção do amante.
A senda do amor tem canteiros com roseiras e abrolhos. Os que se atrevem a trilhá-la precisam saber de antemão que podem ser premiados com a alegria, mas se arriscam a amargar profunda tristeza. Ao contrário do que prometem os folhetins e dramalhões baratos, amar requer coragem. A íntima relação entre amor e virtude faz com que o amor precise de alguns tributos.
Amor e coerção se contradizem. Para que o amor aconteça, as gaiolas devem ser abertas, os cadeados destravados e os caminhos liberados. Um casal não pode tentar segurar uma relação com ameaça, suborno ou manipulação. Um pai não pode pretender ganhar o amor de um filho à força. Na parábola do filho pródigo, o pai deixou o filho partir porque sabia que a única força que o traria de volta era seu testemunho de integridade e bondade. “Vou voltar. Na casa de meu pai os empregados são tratados com dignidade”, repetia o rapaz. Amor acontece no limite do abandono, mas se fortalece com a livre decisão de dizer: “Contudo, eu quero”.
Amor e traição não combinam. Para ser real, o amor precisa da segurança que as palavras sejam autênticas, os gestos sinceros e as intenções puras. A suspeita mata o amor; o engano o asfixia. Só com confiança existe carinho. Apenas a sinceridade transmite a força do bem-querer.
Amor e altruísmo são quase sinônimos. Os egoístas, os avaros, nada percebem sobre afeição. Para o relacionamento ser significativo precisa esquecer de si para dedicar-se ao outro. Quem ama não contabiliza custos. Quando presenteia, não mede esforços para dar o melhor. O amante sai da lógica do mínimo; pensa em superlativos.
Amor e inclemência se anulam. Só os apaixonados se idealizam. Quem ama não desiste, mesmo reconhecendo as imperfeições do outro. Para o amor continuar é necessário perdão – algumas vezes, setenta vezes sete em um só dia.
Todos esses princípios são nobres e bonitos, mas para um homem amar uma mulher, mas amar de verdade, é preciso saber fazer cafuné; em seu louvor espalhar um canto; andar de mãos dadas, escrever bilhetes ridículos; ter preocupação infundada, chorar com poesia triste; acompanhá-la vez por outra para fazer compras; notar o novo corte de cabelo e jamais, em hipótese alguma, dizer que ela engordou.
Para um amigo amar o amigo é preciso saber silenciar; nunca fazer pergunta indiscreta; não cobrar atenção; estar perto na hora do sufoco; manter-se longe na hora da vergonha; não esperar para ser chamado. Para um pai amar os filhos é preciso saber elogiar os garranchos a lápis como obras de arte; não alegar que na sua juventude nunca teve as oportunidades que proveu para a família; ficar feliz se o filho preferir ser poeta e não engenheiro, músico ao invés de médico, artesão no lugar de aviador.
Amar não é complicado, nem difícil. Basta ter o coração dócil como o das crianças, sincero com os adolescentes, cuidadoso como os adultos e prudente como os idosos. Amar é um presente gratuito de Deus, porque ele é Amor.
(Ricardo Gondim)
A gente acaba aprendendo
A gente não devia, mas acaba aprendendo. A vida é dura; os dias, maus; a convivência com os outros, complicada; por isso, nos especializamos na arte de enganar. A gente acaba aprendendo a disfarçar as angústias mais profundas. Bastam algumas sessões fotográficas para o desenho da boca não denunciar qualquer dor e os olhos deixarem de ser janelas da alma. Cumprimentamo-nos polidamente; mudamos de assunto (vai chover hoje?); olhamos em outra direção. Qualquer movimento serve, desde que nunca evidenciem nossas fragilidades, nossos medos e nossas ansiedades.
A gente acaba aprendendo a empurrar com a barriga, a não se afobar, a adiar, a procrastinar. Não nos inquietamos com o disperder da vida; somos azes em projetar para o além o dever de existir hoje. Complacentes, esquecemos de querer bem, de cuidar do próximo e de fazer a diferença.
A gente acaba aprendendo a não balançar o barco. Não é difícil perceber o tipo de conversa que as pessoas querem; se for trivialidade, esse será o papo. Se querem ser enganadas, oferecemos ilusões. Ensinaram-nos que “é melhor um covarde vivo, do que um herói morto.” Assim, criativos, reciclamos os chavões do senso comum e ficamos “numa boa com a galera”. “Deixa quieto”, repetimos para nós mesmos e preservamos a nossa reputação, garantimos nosso salário; e ninguém vai se magoar com a nossa vidinha. A gente acaba aprendendo a arte do bom-mocismo; cedo nos especializamos em bajular o professor, enrolar a namorada, a tapear o patrão, a arranjar desculpas para os atrasos. Depois tudo fica fácil: Fazemos orações e elegemos alguns poucos mandamentos que nos parecem bem fáceis e intimidamos nosso adversário com uma auréola de “santidade” e dramatizamos com uma cara de humilde. A gente acaba aprendendo a ser altruísta quando for vantajoso; a perdoar como uma vingança; a mostrar paciência para usufruir da “lei da semeadura e da ceifa”; a abrir mão dos direitos, porque existem promessas de que Deus abençoa os mansos. A gente acaba aprendendo a usar máscara, a trocar de fantasia, a mimeztizar os ambientes, a vestir saco e cilícios. Personificamos qualquer personagem. Quando necessário encenamos bardos, parnasianos, românticos, pierrôs, anedotistas, vestais, místicos. E que ninguém nos acuse de coisa alguma, pois somos os mais probos, os mais cândidos, os mais angélicos. E assim, de decoro em decoro, de incorruptibilidade em incorruptibilidade, de sobriedade em sobriedade, tornam-nos sepulcros caiados, guias cegos, serpentes, raça de víboras; enfim, fariseus hipócritas. Acho que chegou a hora de desaprender.
(Ricardo Gondim)
A gente acaba aprendendo a empurrar com a barriga, a não se afobar, a adiar, a procrastinar. Não nos inquietamos com o disperder da vida; somos azes em projetar para o além o dever de existir hoje. Complacentes, esquecemos de querer bem, de cuidar do próximo e de fazer a diferença.
A gente acaba aprendendo a não balançar o barco. Não é difícil perceber o tipo de conversa que as pessoas querem; se for trivialidade, esse será o papo. Se querem ser enganadas, oferecemos ilusões. Ensinaram-nos que “é melhor um covarde vivo, do que um herói morto.” Assim, criativos, reciclamos os chavões do senso comum e ficamos “numa boa com a galera”. “Deixa quieto”, repetimos para nós mesmos e preservamos a nossa reputação, garantimos nosso salário; e ninguém vai se magoar com a nossa vidinha. A gente acaba aprendendo a arte do bom-mocismo; cedo nos especializamos em bajular o professor, enrolar a namorada, a tapear o patrão, a arranjar desculpas para os atrasos. Depois tudo fica fácil: Fazemos orações e elegemos alguns poucos mandamentos que nos parecem bem fáceis e intimidamos nosso adversário com uma auréola de “santidade” e dramatizamos com uma cara de humilde. A gente acaba aprendendo a ser altruísta quando for vantajoso; a perdoar como uma vingança; a mostrar paciência para usufruir da “lei da semeadura e da ceifa”; a abrir mão dos direitos, porque existem promessas de que Deus abençoa os mansos. A gente acaba aprendendo a usar máscara, a trocar de fantasia, a mimeztizar os ambientes, a vestir saco e cilícios. Personificamos qualquer personagem. Quando necessário encenamos bardos, parnasianos, românticos, pierrôs, anedotistas, vestais, místicos. E que ninguém nos acuse de coisa alguma, pois somos os mais probos, os mais cândidos, os mais angélicos. E assim, de decoro em decoro, de incorruptibilidade em incorruptibilidade, de sobriedade em sobriedade, tornam-nos sepulcros caiados, guias cegos, serpentes, raça de víboras; enfim, fariseus hipócritas. Acho que chegou a hora de desaprender.
(Ricardo Gondim)

