Friday, November 30, 2007

Cosmic Girl

Quando acordo de manhã, com freqüência cada vez maior, acontece de eu rejeitar a realidade e mergulhar de novo no sonho. Não porque os meus sonhos sejam melhores do que aquilo que me espera ao acordar. Mas é que entre mim e o mundo não há mais entendimento, eu me desliguei dele. E esse rompimento é definitivo e irrevogável. A cada dia tenho uma consciência mais clara disso. O mundo vai para um lado e eu, eu vou para o outro.

O mundo não tem mais coesão, ele se partiu, mas eu também sou parte do mundo. Ou melhor: eu era uma parte do mundo antes dele se despedaçar. E agora eu faço parte do círculo do qual gostaria de cair fora.

Por acaso é de se admirar que eu fique desesperada quando vejo meus semelhantes por aí, impassíveis como um rebanho de vacas pastando? Eles simplesmente estão aqui, eles se ajeitam. Nada pode surpreendê-los. Comigo é diferente, eu tenho vertigens quando penso em ser. Ao contrário dos outros, não consigo me perder em acontecimentos cotidianos.

Os adultos se acostumaram a todos os fenômenos. Cambaleiam a esmo pela terra, cegos, indiferentes e sem consciência de si mesmos. Foram mimados pela vida, estão anestesiados por tudo o que os sentidos lhes contam. Esqueceram o que de qualquer forma pressentiam quando ainda não podiam perceber a si mesmos. As crianças pelo menos apresentam laivos de espanto com sua existência, mas infelizmente, dentro de um curto período de anos, elas começam a se comportar como se sempre tivessem existido e imediatamente perdem a capacidade de admirar e de levar o mundo a sério.

Eu mesma sou uma criança que cresceu demais: sensível como um recém-nascido. Jamais consegui me tornar adulta. Assim, eu nunca vou descansar. Sempre estarei bem acordada. E embora meus semelhantes estejam acordados à sua maneira, embora eles comam, bebam e saiam para trabalhar – eles estão dormindo.

De que adiantaria beliscar um porco e contar-lhe que ele vai ser abatido daqui a pouco? Talvez ele levante os olhos por um instante. Dois olhos vazios e inexpressivos. Com o homem também é assim! Não adianta falar de Deus e contar que a vida é um milagre, que a vida é um enigma. Ele não perceberá nem poderá perceber, a natureza os protegeu dessa percepção. Deve haver uma espécie de mecanismo inato nos meus semelhantes que os impede de pensar que a vida é um mistério. Eles nasceram com um bloqueio na cabeça que não lhes permite pensar para além da porta da sua casa. Eles estão sempre concentrados em seus mundinhos.

O fato é que eles acordam num conto de fadas e pouco tempo depois estão conformados com isso, muito embora aqui sejam hóspedes apenas por um curto prazo. Eles precisam estar quase mortos para finalmente descobrirem a si mesmos! Eles aceitam as condições da existência, conformam-se em viver uma vida limitada a sessenta ou setenta anos e depois desaparecer. O homem comum quer ter conforto, quer ter prazer. Quer comer e beber até não poder mais, por toda a sua vida. É como um tubo pelo qual a vida passa, até que um dia ele se vira de costas e farto da vida, entrega seu precioso e desprezado espírito.

A humanidade é tola e gira ao redor de um único e denso redemoinho de fome de viver. Dói ver como se esforçam, como se agarram ao seu próprio eu. Ao seu eu-superfície. Seu ego. Seu eu-ilusão. Será que vocês não entendem que somos imagens fugidias numa tela de cinema? Somos vítimas de uma ilusão que nos rasga em pedaços e nos separa de nós mesmos. Olhemos simplesmente para nós mesmos no espelho. Não somos uma profundeza que olha para dentro de si mesma?

A Natureza não se encontra em divina harmonia. A Natureza está em conflito consigo mesma e eu não ficaria atônita se de manhã encontrasse um marciano no meu quarto. Porque ficaria? Eu topei comigo mesma, encontrei a mim mesma no cosmo. O que ainda poderia me assustar?

Dentro de mim existe uma ânsia pela totalidade e pela harmonia. Sempre acreditei na visão panteísta do mundo: Morrer para retornar ao elemento do qual vivemos. Morrer para encontrar a paz. Quando saio de minha vida atarefada e levanto os olhos ao Céu, sei que estou de certa forma vendo o meu caminho de volta para casa. De volta para a minha origem Cósmica.

3 Comments:

Anonymous Anonymous said...

em parte, percebo o mundo da mesma forma...
"A vida é para ser vivida e não, sobrevivida."

4:24 pm  
Blogger Bill Falcão said...

Entendo o que você diz, Cosmic Girl: o mundo vai para um lado, e eu para outro. Pelo menos, vamos juntos, contando umas piadas de vez em quando, né?
Bjuuuussss!! E volte sempre!

5:17 pm  
Blogger Ana Nogueira Fernandes said...

O mundo é uma coooisaa... e a gente prefere não pensar. Ou bolar sonhos pra focar nossa atenção naquilo... eu quero ser uma grande profissional e quando alcançar o sucesso.. o que mais eu vou querer?

4:39 am  

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